O "Auto da Barca do Inferno" é uma peça teatral... Mostrar mais
Análise Completa do Auto da Barca do Inferno














A Obra e sua Estrutura
O "Auto da Barca do Inferno" foi classificado por Gil Vicente como uma moralidade, tendo como objetivo transmitir lições sobre o bem e o mal. A peça aborda a viagem das almas após a morte, destacando noções de virtudes e vícios, prémio e castigo.
A obra é escrita em versos de 7 sílabas métricas (redondilha maior), com estrofes geralmente em oitavas e rimas emparelhadas e interpoladas (ABBAACCA). Não possui divisão original em atos, embora hoje seja frequentemente dividida em cenas conforme a entrada e saída de personagens.
Gil Vicente utiliza diferentes tipos de cómico para, através do riso, corrigir os costumes ("ridendo castigat mores"):
- Cómico de situação: desadaptação da personagem à situação
- Cómico de caráter: inadequação da personagem à sua condição social
- Cómico de linguagem: uso de linguagem desadequada à situação
💡 Lembra-te: As personagens não representam indivíduos específicos, mas sim tipos sociais e profissionais, permitindo a Gil Vicente criticar os defeitos de toda uma classe!

Elementos Alegóricos e Personagens
As personagens dividem-se em dois tipos principais:
- Personagens alegóricas: o Anjo (simboliza o bem) e o Diabo (simboliza o mal)
- Personagens tipo: representam grupos sociais e profissionais (nobreza, clero, burguesia, povo)
Os elementos alegóricos da obra são carregados de simbolismo:
- O porto representa o fim da vida terrena
- As barcas são o meio que conduz ao céu (salvação) ou ao inferno (perdição)
- O Diabo simboliza a condenação dos vícios
- O Anjo simboliza a recompensa das virtudes
Na cena inicial, o Diabo prepara animadamente a sua barca, convencido de que terá muitos passageiros. As personagens que depois chegam ao cais trazem consigo adereços simbólicos que identificam sua classe social e seus pecados.
O aspeto cénico é essencial nesta obra: cada personagem usa trajes e objetos específicos que revelam imediatamente sua identidade social e falhas morais. Quando chegam ao cais, todas devem enfrentar o julgamento que determinará seu destino eterno.

O Fidalgo
O Fidalgo é a primeira alma a chegar ao cais, transportando elementos cénicos carregados de simbolismo:
- Pagem: representa sua tirania e exploração dos mais fracos
- Manto: simboliza a vaidade e status social
- Cadeira de espaldas: simboliza a falsa vivência da religião
Seu percurso cénico é revelador: primeiro dirige-se à barca do Diabo, que o recebe com ironia e eufemismos ("vai para a ilha perdida"). Depois tenta sua sorte na barca da Glória, onde o Anjo o acusa de tirania e vaidade. Finalmente, retorna à barca infernal, arrependendido, mas já sem esperança.
O Fidalgo mostra diferentes estados psicológicos durante a cena:
- Inicialmente está sereno e confiante na salvação
- Mostra arrogância ao dirigir-se ao Anjo
- Termina arrependido e desanimado após ser rejeitado
Como personagem tipo, ele representa a nobreza da época de Gil Vicente, caracterizando-se por ser:
- Vaidoso e presunçoso
- Tirano com os mais fracos
- Materialista e infiel (tinha uma amante)
💡 Ao condenar o Fidalgo, Gil Vicente não critica apenas um indivíduo, mas toda uma classe social, como evidencia a fala do Diabo: "que assi passou o vosso pai".

O Fidalgo (continuação) e o Onzeneiro
Os argumentos de defesa do Fidalgo mostram sua mentalidade:
- Deixou alguém rezando por ele na Terra
- Acredita que seu estatuto social ("Sou fidalgo de solar") poderia comprar sua salvação
Contra ele, o Diabo argumenta:
- Levou vida de prazeres sem se importar com os outros
- Demonstrou excessiva vaidade
- Desprezou os mais pobres
O Anjo reforça estas acusações:
- Seu manto é "muito largo para um batel tão estreito" (símbolo da vaidade)
- Foi tirano e desprezou o povo que dele se queixava
Após ser condenado, o Fidalgo pede para voltar brevemente à vida para consolar sua amante e esposa. O Diabo revela-lhe, ironicamente, que sua amante já está com "outro de menor preço" e que sua esposa está aliviada com sua morte.
O Onzeneiro (agiota)
O Onzeneiro chega carregando um bolsão, símbolo da sua atividade de usurário (cobrava juros de 11% sobre empréstimos) e de seus pecados de ambição e avareza.
Sua defesa é fraca - alega levar o bolsão vazio. O Diabo e o Anjo o acusam de:
- Avareza e ambição (mesmo morto, só pensa no dinheiro deixado em terra)
- Enriquecimento às custas dos mais pobres
- Ter o coração "cheio de pecados"

O Onzeneiro e o Parvo
O Diabo chama o Onzeneiro de "parente", pois ambos promovem o mal - o usurário serviu a Satanás em vida com sua ganância. Com ironia, o Diabo comenta: "ora muito m'espanto/ nom vos livrar o dinheiro", zombando da ilusão de que a riqueza poderia salvá-lo.
Mesmo condenado, o Onzeneiro pede para voltar à Terra para buscar seu dinheiro, acreditando que poderia subornar o Anjo e "comprar" sua ida ao paraíso. Esta atitude demonstra que, mesmo após a morte, sua obsessão pelo dinheiro e sua crença de que "tudo tem um preço" permanecem intactas.
O Parvo
O Parvo (Joane) é uma figura única no auto, pois não representa qualquer grupo social ou profissional. Diferentemente das outras personagens:
- Não traz qualquer elemento cénico (símbolo de sua inocência)
- Não há referências à sua vida terrena
- Sua simplicidade e ingenuidade o salvam
Esta personagem traz muito cómico de linguagem à cena com expressões como "Samicas de caganeira". O Parvo repudia o convite para embarcar na barca do Inferno e roga pragas ao Diabo.
Ao dirigir-se à barca da Glória, o Anjo lhe diz que pode entrar quando quiser, pois os "pobres de espírito" estão isentos de pecado, conforme a doutrina cristã. O Anjo pede-lhe que aguarde no cais para o caso de aparecerem outras almas merecedoras da salvação.
💡 O Parvo é a única personagem que, pela sua simplicidade, consegue a salvação imediata. Gil Vicente mostra que a pureza de intenções vale mais que status social ou riquezas.

O Sapateiro e a Alcoviteira
O Sapateiro
O Sapateiro entra em cena com avental e formas de sapato, que simbolizam tanto sua profissão quanto o peso dos pecados acumulados ("A cárrega t'embaraça"). Ele representa os artesãos da época.
Em sua defesa, o Sapateiro menciona seu cumprimento dos preceitos religiosos:
- Assistiu a missas
- Deu esmolas
- Rezou pelos mortos
- Confessou-se e comungou antes de morrer
Porém, é acusado de:
- Mentir
- Roubar (cobrava valores excessivos pelos serviços)
- Ser falso religioso (apenas cumpria rituais sem verdadeira fé)
O Diabo o chama ironicamente de "Santo e honrado sapateiro", evidenciando que era justamente o contrário. A moralidade desta cena é clara: não basta cumprir rituais religiosos se se leva uma vida desonesta.
A Alcoviteira
A Alcoviteira (Brísida Vaz) é uma personagem-tipo que representa as mulheres que exploravam outras socialmente frágeis. Ela traz numerosos adereços cénicos, símbolos da sua atividade:
- Moças (que explorava)
- Seiscentos virgos postiços
- Três arcas de feitiços
- Três almários de mentir
- Cinco cofres de intrigas
- Coxins e estrado de cortiça
Estes elementos simbolizam os artifícios do seu ofício de prostituição e feitiçaria. Em sua defesa, ela se compara aos apóstolos, alegando ter "convertido" muitas moças. A acusação é tão evidente que nem o Anjo nem o Diabo precisam argumentar contra ela.

O Judeu e o Corregedor
O Judeu
O Judeu aparece carregando um bode às costas, símbolo da sua religião. Diferentemente das outras personagens, ele dirige-se imediatamente à barca do Inferno, refletindo a marginalização dos judeus na sociedade portuguesa da época.
Curiosamente, o Diabo não mostra interesse em embarcá-lo, sugerindo que tente a barca do Anjo, "pois está mais vazia". O Judeu até oferece dinheiro para embarcar com seu bode, mostrando o apego à sua religião.
Na barca do Paraíso, ele é recebido por Joane (o Parvo), que o acusa de:
- Roubo
- Profanação de sepulturas
- Comer carne em dias de jejum (não cumprir os preceitos religiosos)
Perante estas acusações, o Judeu retorna à barca do Inferno, onde o Diabo determina que vá "a reboque", levando o bode pela trela, colocando-o num plano inferior aos outros condenados.
O Corregedor
O Corregedor (juiz) aparece com elementos cénicos significativos:
- Vara: símbolo do seu poder enquanto juiz
- Processos judiciais: remetem à sua profissão e pecados, demonstrando a falta de justiça e o trabalho inacabado que deixou na Terra
O Diabo o chama de "amador de perdiz", indicando que aceitava subornos. Entre as acusações estão:
- Lucrar com ofertas dos judeus
- Extorquir dinheiro de trabalhadores ignorantes
- Aceitar roubos
- Julgar com malícia
💡 O Corregedor defende-se alegando que "sempre procedeu mediante a justiça", mas tanto o Diabo quanto o Anjo percebem a falsidade desta afirmação. Esta personagem demonstra como a corrupção afetava o sistema judiciário da época.

O Procurador e o Enforcado
O Procurador
O Procurador aparece carregando livros, que representam sua profissão e, simultaneamente, o peso dos seus pecados. Junto com o Corregedor, forma um par que simboliza a justiça corrupta da época.
Durante seu diálogo com o Corregedor, o Procurador:
- Admite ser "malicioso", embora não tivesse percebido que suas ações eram "extremas"
- Descobre que o Corregedor escondeu seus roubos durante a confissão
Ambos utilizam expressões em latim para demonstrar erudição e realçar sua presunção. Por troça e com ironia, o Diabo também utiliza um "latim macarrónico" com eles, e o Parvo faz o mesmo quando estão diante da barca da Glória.
O Anjo descreve os processos judiciais e os livros de ambos como "papel corrompido", aludindo ao fato de terem prejudicado os mais desfavorecidos com suas decisões parciais.
O Enforcado
O Enforcado representa os criminosos do povo, trazendo como elemento cénico uma corda ao pescoço (baraço), símbolo da forma como morreu. Ele surge em cena logo após os oficiais de justiça, já que foi vítima da justiça terrena que eles representam.
É descrito como um homem:
- Ingénuo e confiante
- Influenciável e crédulo
- Simples
Ele está convencido de que não irá para o inferno, pois foi enganado por Garcia Moniz, um funcionário do Tesouro, que o convenceu de que:
- Sua prisão já funcionou como purgatório
- Seus crimes foram "purificados" pelo sofrimento na prisão
- Tornou-se um "canonizado" por suas experiências
O Diabo demonstra-lhe que, mesmo influenciado, ele escolheu seu percurso criminoso e deve pagar por suas escolhas. Desanimado, o Enforcado embarca na barca do Inferno sem sequer tentar a barca da Glória.

A Crítica Social e Conclusão
O "Auto da Barca do Inferno" utiliza a alegoria do julgamento das almas para realizar uma profunda crítica social à sociedade portuguesa do século XVI. Cada personagem representa vícios específicos:
- O Fidalgo: representa a nobreza vaidosa e tirânica
- O Onzeneiro: simboliza a ganância e a avareza da burguesia emergente
- O Sapateiro: ilustra a falsa religiosidade dos artesãos
- A Alcoviteira: personifica a exploração das mulheres vulneráveis
- O Judeu: representa a discriminação religiosa da época
- O Corregedor e o Procurador: denunciam a corrupção no sistema judicial
- O Enforcado: mostra como os mais simples são facilmente influenciáveis
Apenas o Parvo consegue a salvação, pois sua simplicidade e ingenuidade o mantêm livre dos pecados da ambição, vaidade e corrupção que contaminam as outras personagens.
Gil Vicente usa elementos cénicos, linguagem e situações cómicas para criar um espetáculo que, enquanto diverte, também ensina. A obra continua atual por mostrar vícios humanos que persistem através dos séculos: ganância, hipocrisia, corrupção e vaidade.
💡 A mensagem final é clara: não são as aparências, o status social ou a riqueza que garantem a salvação, mas sim a pureza de coração e a integridade moral. Todas as personagens condenadas têm em comum a falta de verdadeira virtude, escondida sob aparências de religiosidade ou importância social.




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O "Auto da Barca do Inferno" é uma peça teatral de Gil Vicente que representa o julgamento das almas após a morte. Nesta obra de moralidade, personagens de diferentes classes sociais chegam a um porto onde duas barcas esperam: uma... Mostrar mais

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A Obra e sua Estrutura
O "Auto da Barca do Inferno" foi classificado por Gil Vicente como uma moralidade, tendo como objetivo transmitir lições sobre o bem e o mal. A peça aborda a viagem das almas após a morte, destacando noções de virtudes e vícios, prémio e castigo.
A obra é escrita em versos de 7 sílabas métricas (redondilha maior), com estrofes geralmente em oitavas e rimas emparelhadas e interpoladas (ABBAACCA). Não possui divisão original em atos, embora hoje seja frequentemente dividida em cenas conforme a entrada e saída de personagens.
Gil Vicente utiliza diferentes tipos de cómico para, através do riso, corrigir os costumes ("ridendo castigat mores"):
- Cómico de situação: desadaptação da personagem à situação
- Cómico de caráter: inadequação da personagem à sua condição social
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Elementos Alegóricos e Personagens
As personagens dividem-se em dois tipos principais:
- Personagens alegóricas: o Anjo (simboliza o bem) e o Diabo (simboliza o mal)
- Personagens tipo: representam grupos sociais e profissionais (nobreza, clero, burguesia, povo)
Os elementos alegóricos da obra são carregados de simbolismo:
- O porto representa o fim da vida terrena
- As barcas são o meio que conduz ao céu (salvação) ou ao inferno (perdição)
- O Diabo simboliza a condenação dos vícios
- O Anjo simboliza a recompensa das virtudes
Na cena inicial, o Diabo prepara animadamente a sua barca, convencido de que terá muitos passageiros. As personagens que depois chegam ao cais trazem consigo adereços simbólicos que identificam sua classe social e seus pecados.
O aspeto cénico é essencial nesta obra: cada personagem usa trajes e objetos específicos que revelam imediatamente sua identidade social e falhas morais. Quando chegam ao cais, todas devem enfrentar o julgamento que determinará seu destino eterno.

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O Fidalgo
O Fidalgo é a primeira alma a chegar ao cais, transportando elementos cénicos carregados de simbolismo:
- Pagem: representa sua tirania e exploração dos mais fracos
- Manto: simboliza a vaidade e status social
- Cadeira de espaldas: simboliza a falsa vivência da religião
Seu percurso cénico é revelador: primeiro dirige-se à barca do Diabo, que o recebe com ironia e eufemismos ("vai para a ilha perdida"). Depois tenta sua sorte na barca da Glória, onde o Anjo o acusa de tirania e vaidade. Finalmente, retorna à barca infernal, arrependendido, mas já sem esperança.
O Fidalgo mostra diferentes estados psicológicos durante a cena:
- Inicialmente está sereno e confiante na salvação
- Mostra arrogância ao dirigir-se ao Anjo
- Termina arrependido e desanimado após ser rejeitado
Como personagem tipo, ele representa a nobreza da época de Gil Vicente, caracterizando-se por ser:
- Vaidoso e presunçoso
- Tirano com os mais fracos
- Materialista e infiel (tinha uma amante)
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O Fidalgo (continuação) e o Onzeneiro
Os argumentos de defesa do Fidalgo mostram sua mentalidade:
- Deixou alguém rezando por ele na Terra
- Acredita que seu estatuto social ("Sou fidalgo de solar") poderia comprar sua salvação
Contra ele, o Diabo argumenta:
- Levou vida de prazeres sem se importar com os outros
- Demonstrou excessiva vaidade
- Desprezou os mais pobres
O Anjo reforça estas acusações:
- Seu manto é "muito largo para um batel tão estreito" (símbolo da vaidade)
- Foi tirano e desprezou o povo que dele se queixava
Após ser condenado, o Fidalgo pede para voltar brevemente à vida para consolar sua amante e esposa. O Diabo revela-lhe, ironicamente, que sua amante já está com "outro de menor preço" e que sua esposa está aliviada com sua morte.
O Onzeneiro (agiota)
O Onzeneiro chega carregando um bolsão, símbolo da sua atividade de usurário (cobrava juros de 11% sobre empréstimos) e de seus pecados de ambição e avareza.
Sua defesa é fraca - alega levar o bolsão vazio. O Diabo e o Anjo o acusam de:
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O Onzeneiro e o Parvo
O Diabo chama o Onzeneiro de "parente", pois ambos promovem o mal - o usurário serviu a Satanás em vida com sua ganância. Com ironia, o Diabo comenta: "ora muito m'espanto/ nom vos livrar o dinheiro", zombando da ilusão de que a riqueza poderia salvá-lo.
Mesmo condenado, o Onzeneiro pede para voltar à Terra para buscar seu dinheiro, acreditando que poderia subornar o Anjo e "comprar" sua ida ao paraíso. Esta atitude demonstra que, mesmo após a morte, sua obsessão pelo dinheiro e sua crença de que "tudo tem um preço" permanecem intactas.
O Parvo
O Parvo (Joane) é uma figura única no auto, pois não representa qualquer grupo social ou profissional. Diferentemente das outras personagens:
- Não traz qualquer elemento cénico (símbolo de sua inocência)
- Não há referências à sua vida terrena
- Sua simplicidade e ingenuidade o salvam
Esta personagem traz muito cómico de linguagem à cena com expressões como "Samicas de caganeira". O Parvo repudia o convite para embarcar na barca do Inferno e roga pragas ao Diabo.
Ao dirigir-se à barca da Glória, o Anjo lhe diz que pode entrar quando quiser, pois os "pobres de espírito" estão isentos de pecado, conforme a doutrina cristã. O Anjo pede-lhe que aguarde no cais para o caso de aparecerem outras almas merecedoras da salvação.
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O Sapateiro e a Alcoviteira
O Sapateiro
O Sapateiro entra em cena com avental e formas de sapato, que simbolizam tanto sua profissão quanto o peso dos pecados acumulados ("A cárrega t'embaraça"). Ele representa os artesãos da época.
Em sua defesa, o Sapateiro menciona seu cumprimento dos preceitos religiosos:
- Assistiu a missas
- Deu esmolas
- Rezou pelos mortos
- Confessou-se e comungou antes de morrer
Porém, é acusado de:
- Mentir
- Roubar (cobrava valores excessivos pelos serviços)
- Ser falso religioso (apenas cumpria rituais sem verdadeira fé)
O Diabo o chama ironicamente de "Santo e honrado sapateiro", evidenciando que era justamente o contrário. A moralidade desta cena é clara: não basta cumprir rituais religiosos se se leva uma vida desonesta.
A Alcoviteira
A Alcoviteira (Brísida Vaz) é uma personagem-tipo que representa as mulheres que exploravam outras socialmente frágeis. Ela traz numerosos adereços cénicos, símbolos da sua atividade:
- Moças (que explorava)
- Seiscentos virgos postiços
- Três arcas de feitiços
- Três almários de mentir
- Cinco cofres de intrigas
- Coxins e estrado de cortiça
Estes elementos simbolizam os artifícios do seu ofício de prostituição e feitiçaria. Em sua defesa, ela se compara aos apóstolos, alegando ter "convertido" muitas moças. A acusação é tão evidente que nem o Anjo nem o Diabo precisam argumentar contra ela.

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O Judeu e o Corregedor
O Judeu
O Judeu aparece carregando um bode às costas, símbolo da sua religião. Diferentemente das outras personagens, ele dirige-se imediatamente à barca do Inferno, refletindo a marginalização dos judeus na sociedade portuguesa da época.
Curiosamente, o Diabo não mostra interesse em embarcá-lo, sugerindo que tente a barca do Anjo, "pois está mais vazia". O Judeu até oferece dinheiro para embarcar com seu bode, mostrando o apego à sua religião.
Na barca do Paraíso, ele é recebido por Joane (o Parvo), que o acusa de:
- Roubo
- Profanação de sepulturas
- Comer carne em dias de jejum (não cumprir os preceitos religiosos)
Perante estas acusações, o Judeu retorna à barca do Inferno, onde o Diabo determina que vá "a reboque", levando o bode pela trela, colocando-o num plano inferior aos outros condenados.
O Corregedor
O Corregedor (juiz) aparece com elementos cénicos significativos:
- Vara: símbolo do seu poder enquanto juiz
- Processos judiciais: remetem à sua profissão e pecados, demonstrando a falta de justiça e o trabalho inacabado que deixou na Terra
O Diabo o chama de "amador de perdiz", indicando que aceitava subornos. Entre as acusações estão:
- Lucrar com ofertas dos judeus
- Extorquir dinheiro de trabalhadores ignorantes
- Aceitar roubos
- Julgar com malícia
💡 O Corregedor defende-se alegando que "sempre procedeu mediante a justiça", mas tanto o Diabo quanto o Anjo percebem a falsidade desta afirmação. Esta personagem demonstra como a corrupção afetava o sistema judiciário da época.

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O Procurador
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Durante seu diálogo com o Corregedor, o Procurador:
- Admite ser "malicioso", embora não tivesse percebido que suas ações eram "extremas"
- Descobre que o Corregedor escondeu seus roubos durante a confissão
Ambos utilizam expressões em latim para demonstrar erudição e realçar sua presunção. Por troça e com ironia, o Diabo também utiliza um "latim macarrónico" com eles, e o Parvo faz o mesmo quando estão diante da barca da Glória.
O Anjo descreve os processos judiciais e os livros de ambos como "papel corrompido", aludindo ao fato de terem prejudicado os mais desfavorecidos com suas decisões parciais.
O Enforcado
O Enforcado representa os criminosos do povo, trazendo como elemento cénico uma corda ao pescoço (baraço), símbolo da forma como morreu. Ele surge em cena logo após os oficiais de justiça, já que foi vítima da justiça terrena que eles representam.
É descrito como um homem:
- Ingénuo e confiante
- Influenciável e crédulo
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Ele está convencido de que não irá para o inferno, pois foi enganado por Garcia Moniz, um funcionário do Tesouro, que o convenceu de que:
- Sua prisão já funcionou como purgatório
- Seus crimes foram "purificados" pelo sofrimento na prisão
- Tornou-se um "canonizado" por suas experiências
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A Crítica Social e Conclusão
O "Auto da Barca do Inferno" utiliza a alegoria do julgamento das almas para realizar uma profunda crítica social à sociedade portuguesa do século XVI. Cada personagem representa vícios específicos:
- O Fidalgo: representa a nobreza vaidosa e tirânica
- O Onzeneiro: simboliza a ganância e a avareza da burguesia emergente
- O Sapateiro: ilustra a falsa religiosidade dos artesãos
- A Alcoviteira: personifica a exploração das mulheres vulneráveis
- O Judeu: representa a discriminação religiosa da época
- O Corregedor e o Procurador: denunciam a corrupção no sistema judicial
- O Enforcado: mostra como os mais simples são facilmente influenciáveis
Apenas o Parvo consegue a salvação, pois sua simplicidade e ingenuidade o mantêm livre dos pecados da ambição, vaidade e corrupção que contaminam as outras personagens.
Gil Vicente usa elementos cénicos, linguagem e situações cómicas para criar um espetáculo que, enquanto diverte, também ensina. A obra continua atual por mostrar vícios humanos que persistem através dos séculos: ganância, hipocrisia, corrupção e vaidade.
💡 A mensagem final é clara: não são as aparências, o status social ou a riqueza que garantem a salvação, mas sim a pureza de coração e a integridade moral. Todas as personagens condenadas têm em comum a falta de verdadeira virtude, escondida sob aparências de religiosidade ou importância social.

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